Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008
Já fez um "senta e roda" para um político hoje?
Outro dia eu estava aqui, no sossego do meu lar, quando o maldito Eduardo Paes, candidato a prefeito da minha (?) cidade, passou em carreata. Do alto do quarto andar, fiquei olhando para aquele palhaço acenando, sorrindo em meio à barulheira dos carros de som e ao tremular das bandeiras, e atrás um carro cheio de fotógrafos registrando o teatro do sujeito. De repente ele olhou para cima, com aquele sorrisão, e eu fiquei sério, olhando para ele. Ele manteve o sorriso falso, mesmo enquanto eu olhava para ele sério.
Segundos depois, caiu a ficha: por que eu não aproveitei para fazer um gesto obsceno para o sujeito? Aquele bem popular, de erguer o dedo do meio e abaixar os outros, o popular "senta e roda"? Como pude perder uma chance dessas? Fiquei dias pensando nisso, com vontade de chutar meu próprio traseiro.
Ontem passou o debate entre ele e o Gabeira na Record. O debate me fez sentir ainda mais raiva desse sujeito populista, que faz uma campanha de tão baixo nível, baseada em artimanhas manjadas para denegrir seu adversário (nota: este blogueiro também não é pró-Gabeira, mas vocês hão de convir que a campanha dele teve nível bem mais alto).
Hoje, para a minha felicidade, a carreata do Paes voltou à minha rua! Nossa, foi quase como descobrir que Deus existe. Mesmo sendo ateu, eu soltei um "obrigado, senhor"! Corri para a janela e esperei. Vieram o som alto, as bandeiras e, por fim, o Paes, seguido pelo carro de fotógrafos. Ele olhou para o alto, sorriu, acenou. Eu olhei para ele e, com um gesto da mão direita, mandei ele sentar e rodar.
Ele continuou me olhando, sorrindo, acenando, fingindo que estava tudo bem. Mas eu sei que, lá dentro, ele estava pensando: "filho da puta". Rapaz, que satisfação.
Por isso, aproveito este espaço para pedir a você que faça o mesmo, e na primeira oportunidade, use sua mão favorita (canhotos, não se acanhem!) para mandar um político sentar e rodar. Depois poste aqui nos comentários. Se tiver foto do momento, então, eu posto por aqui, eu juro.
Domingo, 24 de Agosto de 2008
Muito além do jardim secreto...
Não é sempre que damos a sorte de assistir a um bom filme. Assistir a dois bons filmes em sequência, então, é bom demais. Pois foi o que aconteceu comigo. Anteontem assisti a "Muito Além do Jardim", clássico com Peter Sellers que só fui descobrir graças ao meu amigo Luís Henrique, do excelentíssimo Pausa prum Café.
Chance (Peter Sellers) é jardineiro de uma casa, onde vive por toda sua vida, sem nunca ter saído. Chance é como um livro em branco, que parece não ter grandes emoções ou personalidade, embora haja uma certa simpatia em sua figura. Um dia, o dono da casa morre e Chance (que como o nome bem indica, parece ser empurrado pelo acaso) tem que sair da casa.
Por uma série de situações absurdas, ele é acolhido por um milionário à beira da morte que transfere todos os seus negócios (incluindo a esposa) para ele. Até o presidente dos Estados Unidos acaba conquistado pelo jardineiro. O fato é que Chance começa a ganhar popularidade com seu discurso boboca exatamente como um livro de auto-ajuda, que é oco, atuando como uma tela onde os leitores projetam suas impressões, enxergando só aquilo que querem enxergar. Psicologia de botequim, como eu costumo dizer.
A cena final é emblemática: Chance caminha sobre as águas, à la Jesus Cristo. Aqui cabem várias interpretações. Ao meu ver, a frase final explica tudo: "A vida é um estado de espírito". Chance deixa que as pessoas projetem seus anseios sobre ele sem interferir, e isso as satisfaz. Dessa forma, boboca e oco, Chance triunfa sobre todas as tormentas, sem se abalar com nada, nem com o rio. Ou será que estou agindo exatamente como os outros personagens do filme, enxergando algo que não está lá...?
O segundo filme foi "O Jardim Secreto". Uma menina que leva uma vida cheia de regalias na Índia, com criadas que trocam suas roupas e servem-lhe a comida, perde os pais em um terremoto e vai morar com o tio na Europa. Lá descobre que sua mãe tinha uma irmã gêmea, que também faleceu. Ela conhece o primo, que vive enclausurado, supostamente doente. A analogia é evidente: duas crianças que não sabem nada sobre a vida, que passaram suas vidas protegidas pelas paredes de seus quartos. Até as mães têm a mesma aparência. O garoto é um espelho da menina.
É um filme sobre o crescimento, sobre crianças descobrindo a vida. Parece bobo, eu sei, mas é um excelente filme. É como dizem: mesmo as coisas óbvias precisam ser ditas, ao que eu acrescento: se é para dizer algo óbvio, então capriche. E esse filme capricha. Faturou até um raro "100%" do Rotten Tomatoes.
Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008
Jeová Health Inc.
Decidi fazer um plano de saúde para a minha esposa, e ontem recebi a visita de um corretor da Amil. Conforme combinado, o sujeito, muito simpático, chegou aqui às 10:00 da manhã e sentamos para conversar, eu, ele e minha esposa.
O sujeito foi explicando as vantagens do plano, falando da rede credenciada, tudo numa boa. De repente, ele pergunta: qual é a religião de vocês?
Você, que acompanha este blog, já deve estar dando risada, pensando "esse cara atrai essas coisas". Pois é. Há uma regra básica para esse tipo de situação: se durante uma conversa o assunto segue naturalmente para o tópico da religião, e alguém pergunta qual é a sua religião, há grandes chances desse alguém ser católico. Mas se você está conversando sobre amendoim e queijo provolone e o sujeito subitamente pergunta sobre a sua religião, pode ter certeza que das duas uma: ou ele é evangélico ou é testemunha de Jeová.
No meu caso, dei sorte: ele era testemunha de Jeová. Digo que dei sorte porque já ouvi muita pregação evangélica, e ela já não me surpreende muito. Mas nunca tinha tido a oportunidade de conversar com uma testemunha de Jeová.
Quando eu disse que era ateu o sujeito fez logo cara de espanto: "mas ateu mesmo?" Bom, ateu é ateu, né, acho que sou ateu mesmo. Aí o sujeito começou a falar da criação dele, que ele era testemunha de Jeová, e aí começou aquela série de absurdos. Por exemplo, o sujeito insistiu na célebre falácia de que o olho era perfeito demais para ter surgido do nada. Nós, que somos pessoas esclarecidas, sabemos que de fato o olho não pode ter surgido de um golpe de sorte evolutivo, e que os primeiros olhos eram estruturas primitivas, capazes apenas de identificar a ausência de luz, ou seja: se um predador cego passasse na frente de uma criatura com um olho desses, a criatura saberia que algo obstruiu a luz, o que obviamente dava a ela uma grande vantagem evolutiva. Daí o olho foi se desenvolvendo ao longo de milhões de anos, até chegar no que temos hoje (e que, em milhões de anos, será considerado quase tão primitivo quanto o olho que só distingüia as sombras).
Óbvio que não adiantou dizer isso ao sujeito, afinal de contas, testemunhas de Jeová não acreditam na evolução. Vocês sabem, eu já postei sobre eles aqui antes, mas vou refrescar a memória de vocês:
"Noé viveu no começo da história humana. Ele nasceu cerca de mil anos depois da criação do primeiro homem. Os que viviam naquela época não eram homens das cavernas como muitos imaginam — criaturas peludas, desprovidas de inteligência, que andavam encurvadas com clavas nas mãos."
Daí o sujeito falou que havia provas científicas de que o dilúvio de fato ocorreu, que foram encontrados destroços da arca em não sei onde, que a ciência ainda não tinha encontrado o "elo perdido", e que portanto não havia provas de que o homem descendia do macaco e todas aquelas besteiras. O que eu acho engraçado é que, para eles, o fato de haver provas científicas da existência dos dinossauros (fósseis e afins) não prova nada, é uma grande mentira. Porém, as supostas evidências científicas para a ocorrência do dilúvio, ah, essas valem. Raios, qual é o critério dessas pessoas?
Ele falou em Sodoma e Gomorra, e eu obviamente não ia perder a chance de malhar Ló, aquele sujeito bondoso, único escolhido por Deus para ser salvo, e que oferece as filhas virgens para aplacar a ira dos taradões locais. O sujeito já veio dizendo que ele entendeu a história de um jeito diferente, que havia uma explicação, que as filhas de Jó eram casadas com homens ricos ou algo do gênero.
A Bíblia é literatura, e uma obra literária pode ser interpretada do jeito que você quiser. Lembro numa aula na faculdade em que o professor nos deu um poema de Dylan Thomas. Na época eu estava lendo "Assim falou Zaratustra", e já saí enxergando influências Nietzscheanas no poema. Aí o professor me disse, muito sabiamente: sua interpretação é válida, você está enxergando o poema sob uma ótica Nietzscheana. Mas isso não quer dizer que o poema foi, de fato, influenciado por Nietzsche.
O que eu quero dizer é que o sujeito dá uma volta enorme e acrescenta suas próprias convicções à leitura da Bíblia. Aquilo não está realmente escrito, ele é que está projetando suas convicções sobre o texto.
Apesar de tudo isso, há uma coisa a se admirar nas testemunhas de Jeová: eles seguem a Bíblia à risca. Não que eu ache que isso seja algo positivo, mas ao menos eles são pessoas mais coerentes. Os católicos lêem a Bíblia escolhendo as passagens nas quais acreditam e as passagens nas quais não acreditam. Hoje em dia, é difícil achar um católico que acredite, de fato, que a criação levou sete dias. Dos que dizem acreditar, pelo menos metade se mostra visivelmente constrangida em fazê-lo. As testemunhas de Jeová não, elas acreditam para valer em tudo o que está escrito lá. E vocês hão de convir que, se um livro é tido como sagrado, não tem cabimento dizer "nisso eu acredito" e "nisso eu não acredito" ou "essa parte é só uma história, uma parábola, não foi real". Raios, se o livro é sagrado, como você vai discordar dele? Ao menos peito as testemunhas de Jeová têm.
No finzinho da conversa o sujeito veio me dizer que os desastres naturais previstos pela Bíblia já estavam se concretizando, e que logo logo teríamos uma chuva de meteoros sobre o nosso planeta. Na dúvida, é melhor não arriscar: fiz o plano de saúde, porque esses meteoros devem machucar para dedéu.
Segunda-feira, 28 de Julho de 2008
Ninguém liga para o microcosmo I: violência
Eu acho impressionante como as pessoas subestimam certos problemas para supervalorizar outros bem menos menores.
Não sei se vocês já leram "Stupid white men", do Michael Moore. Eu não li, mas dei uma folheada numa livraria. Em um capítulo ele fala sobre uma pesquisa que mostra que boa parte dos pais americanos não deixaria o filho ir brincar na casa de um amigo cujo pai possuísse uma arma, com medo de um acidente. Por outro lado, uma grande parcela dos pais não se incomodaria de deixar seus filhos irem brincar na piscina do vizinho. O curioso disso tudo é que o número de crianças que morrem afogadas em piscinas é muito maior que o número de crianças que morrem pelo disparo acidental de uma arma de fogo.
Pergunte a um amigo se ele toparia passar um mês de férias em Israel. "Tá louco, rapaz? Com todos aqueles atentados terroristas!" Trabalhei por anos para um patrão judeu, e ele sempre ironizava isso. Afinal de contas, é muito mais fácil levar um tiro aqui no Rio de Janeiro (coisa que acontece todo dia) do que morrer num atentado terrorista em Israel, que acontece, sei lá, uma vez por mês. Aqui todo dia morre gente vítima de assalto, espancamento, bala perdida e demais tipos de violência. É uma questão de estatística.
Por que as pessoas não se dão conta dessas coisas? Porque o espetáculo causa mais impacto que os fatos. Três sujeitos morrerem vítimas de bala perdida em um mesmo dia no Rio de Janeiro não tem o mesmo impacto de um sujeito que massacra cidadãos com uma escavadeira, ou que explode uma discoteca com uma bomba. O mesmo vale para a questão do livro do Michael Moore: dá para colocar no noticiário uma criança que morre pelo disparo acidental de uma arma de fogo, mas não a que morre afogada na piscina. Esses eventos medíocres, que afetam grandes massas são o que eu chamo de microcosmo. Estão por aí em toda parte, mas ninguém parece enxergar; os eventos espetaculares (e bem mais raros) sempre preocupam mais as pessoas.
Taí uma boa idéia para uma camisa: "Ninguém liga para o microcosmo".
Quinta-feira, 24 de Julho de 2008
Segunda-feira, 14 de Julho de 2008
Jeová avisa: façam estoque de guarda-chuvas
Estou passando uns dias na casa do meu sogro, numa cidadezinha pequena do Rio de Janeiro. O local está cheio de Testemunhas de Jeová, pessoas que, pelo visto, levam o velho testamento muito a sério.
Outro dia deixaram aqui a infame revistinha "A Sentinela — Anunciando o Reino de Jeová". A capa: "Por que Deus salvou Noé, e por que isso deve nos interessar?" Bom, EU sei porque isso deve nos interessar: porque é completamente absurdo.
Vamos lá, a história de Noé vocês conhecem: Deus inundou a terra, e escolheu Noé para construir uma arca e colocar um casal de cada espécie de animal na arca, para que quando as águas baixassem a vida recomeçasse. Confesso que não sabia nada além disso, e a revistinha me inteirou da situação daqueles tempos:
Bom, a revista conta que naquela época era comum os homens viverem mais de 800 anos. Aí uns anjos se interessaram pelas mulheres dos homens, vieram para a terra e tocaram um rebú danado: eram maus, violentos, depravados. Foi por isso que Deus mandou o dilúvio: a humanidade estava perdida. Só Noé que prestava. Segundo a revista:
Sensacional. Só para fechar, sobre o dilúvio:
Outro dia deixaram aqui a infame revistinha "A Sentinela — Anunciando o Reino de Jeová". A capa: "Por que Deus salvou Noé, e por que isso deve nos interessar?" Bom, EU sei porque isso deve nos interessar: porque é completamente absurdo.
Vamos lá, a história de Noé vocês conhecem: Deus inundou a terra, e escolheu Noé para construir uma arca e colocar um casal de cada espécie de animal na arca, para que quando as águas baixassem a vida recomeçasse. Confesso que não sabia nada além disso, e a revistinha me inteirou da situação daqueles tempos:
"Noé viveu no começo da história humana. Ele nasceu cerca de mil anos depois da criação do primeiro homem. Os que viviam naquela época não eram homens das cavernas como muitos imaginam — criaturas peludas, desprovidas de inteligência, que andavam encurvadas com clavas nas mãos."Viram só, seus paleontólogos de bosta! Vocês não nos enganam! A pré-história é uma fraude! Essa revista é mais revolucionária que o Che Guevara!
Bom, a revista conta que naquela época era comum os homens viverem mais de 800 anos. Aí uns anjos se interessaram pelas mulheres dos homens, vieram para a terra e tocaram um rebú danado: eram maus, violentos, depravados. Foi por isso que Deus mandou o dilúvio: a humanidade estava perdida. Só Noé que prestava. Segundo a revista:
"Não é fácil para um homem justo viver numa sociedade injusta. Noé deve ter sofrido muito com o que as pessoas diziam e faziam. É provável que ele se sentisse como outro homem justo, Ló, que viveu depois do dilúvio (...)"Esse homem justo, Ló, é aquele mesmo Ló do post anterior, sujeito justíssimo que viva em Sodoma e ofereceu suas filhas virgens para que os homens ensandecidos da cidade se fartassem.
Sensacional. Só para fechar, sobre o dilúvio:
"Jesus disse que a mesma coisa aconteceria em nossos dias. Por mais de cem anos as Testemunhas de Jeová têm dado o aviso de que Jeová tomará medidas drásticas para cumprir sua promessa de estabelecer um novo mundo de justiça. Embora milhões de pessoas têm (sic) reagido bem a esse aviso, bilhões não fazem caso"Pronto, estão todos alertados, preparem seus botes. Depois não vão dizer que eu não avisei!
Sábado, 12 de Julho de 2008
Atenção adoradores de Jah: maconha liberada!
Eu juro que tento não falar só sobre religião neste blog, mas está ficando difícil. Vejam a pérola que foi publicada ontem no GLOBO:
Itália libera porte de maconha para rastafárisO curioso é que, sem entrar no mérito da legalização ou não das drogas, a maconha tem propriedades medicinais, mas não pode ser usada no tratamento de quem precisar dela, porque é crime. Mas se for para fins religiosos, então pode. Mundo esquisito...
Suprema corte entende que a erva é considerada santa pelo grupo religioso e usada em orações.
A suprema corte de justiça da Itália liberou ontem o porte de maconha por rastafáris no país sob a alegação de que fumar a erva faz parte da concepção religiosa do grupo (...)
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